Sunday, August 30, 2009

Amendoim

Uma das coisas que mais gosto de fazer é jogar cartas.

Jogo cartas desde pequeno,

Minha mãe tinha um mercado, e nas horas vagas me ensinou a jogar cartas para que pudéssemos passar o tempo.

Ela era canhota, eu destro. Como aprendi a jogar cartas com ela, jogo como um canhoto.

Mas faço todas as outras coisas como um destro comum.

Conheço vários tipos de jogos de cartas, mas meus preferidos são canastra, pife, sessenta e seis, pôker, dorminhoco e burro.

Depois que minha mãe se foi, tive que seguir adiante.

Passei por uma fase meio complicada da minha vida, onde eu passava quase 10 horas do meu dia em botecos, jogando cartas com velhos, bêbados e senhores que respondiam “boa noite” aos telejornais, tirando o dinheiro deles para que eu pudesse sobreviver.

Mas isso passou, nem gosto de lembrar.

O vício, porém, não passou.

Entretanto, eu havia feito uma promessa para mim: nunca mais usar os jogos de cartas para sobreviver.

Arrumei um emprego, cresci, era um homem já. Tudo estava fluindo normalmente, como deveria ser.

Com o passar do tempo, para minha própria distração, adquiri um hábito de jogar cartas comigo mesmo,

Assim, não haveria aposta que eu não pudesse pagar, exceto por um dia em que fiquei devendo 300 reais pra mim mesmo,

Mas isso não vem ao caso. Todos os dias eu jogava canastra comigo.

Certo dia, eu faltei no meu emprego, pois tinha uma partida inacabada para acabar e resolvi usar aquela linda tarde de Sol,

para me trancar em casa e dar um fim ao meu adversário.

Outro hábito que eu havia adquirido ao longo do tempo, era de sempre comer amendoim torrado durante as partidas.

O porquê eu não sei.

Naquele dia então, durante a partida, eu estava perdendo, e estava ficando nervoso. Comia amendoins velozmente, quando de repente ouvi um barulho no teto, algo como alguém caindo de cima do telhado.

Achei estranho, abri a janela e fui ver.

Escutei alguns agoniados gemidos, no meio dos arbustos alguém tentava se erguer.

Era algo estranho, com uma capa de chuva preta (mas como não chovia achei realmente estranho), e uma foice na mão. Pensei que pudera ser o cara que corta grama que minha vó contrata todo mês, e ele poderia estar limpando o telhado. Fiquei com pena e convidei-o para entrar e tomar uma xícara de café.

-“Eu vim te buscar”. Disse ele.

-“Como assim?”. Disse eu.

-“Ora, estou aqui pra te levar comigo.”.

-“Não estou entendendo. Eu não gosto de cortar gramas.”.

-“Cortar gramas? Do que você está falando?”.

-“Não é isso que você está fazendo?”.

-“Claro que não! Você não está me reconhecendo? Olha bem, essa capa, essa foice... Muitos já estariam chorando de medo. Admiro sua coragem.”.

-“Bom, acho que lembro de ti de uma história de um livro do Woody Allen, certo?”.

-“Não sei do que você está falando.”.

-“Ah, então desculpa. Não sei quem você é.”.

-“Eu sou A Morte, idiota! Vim te buscar.”.

-“Você é a morte idiota? Ah. Desculpa mas, não posso ir.”.

-“Não! Eu disse que... Como assim não pode ir?”.

-“Não posso. Ainda não.”.

-“E por que não?”.

-“Por que eu não terminei a minha partida.”.

-“Ah, é verdade. Falta muito?”.

-“Na verdade falta. Mas, me diz aí, como vou morrer? Estou bem de saúde, em casa jogando cartas... Está tudo certo.”.

-“O amendoim.”

-“O que tem?”.

-“Você estava comendo bem depressa, iria se engasgar e morrer.”.

-“Ah, entendo.”.

-“Mas bem, chega de conversa. Volte para sua partida e continue comendo o amendoim.”.

-“Quer sentar?”.

-“Ah, pode ser. Já estou há muito tempo nesse trabalho, e com essa queda acho que vou poder pedir aposentadoria mais cedo. O que você está jogando mesmo?”.

-“Canastra. Você joga?”.

-“Jogo.”.

-“Quer jogar?”.

-“Eu estou trabalhando, não posso.”.

-“Ah, vamos lá. Que tal uma apostinha?”.

-“O que seria?”.

-“Coisa simples. Se eu ganhar, você vai embora e volta só daqui alguns anos.”.

-“Nada feito! O que eu vou dizer se não levar você comigo?”.

-“Eu sabia que tu era maricas.”.

-“Não fale assim comigo! Eu não sou!”.

-“Tá com medo. Eu entendo.”.

-“Não estou com medo! Vamos jogar!”.

-“Certo então.”.

-“Ah, mas e se eu ganhar?”.

-“Eu vou contigo. Meio óbvio.”.

-“Sem graça.”.

-“Vai correr?”.

-“Não corro de nada.”.

-“Trinca de Ás e Três, até Três mil. Sem frescuras.”.

-“Sim, eu sei jogar canastra.”.

E realmente sabia, caro leitor.

A morte me surpreendeu, fazia jogadas absurdas, sempre tinha coringas e no começo eu levei um grande sufoco.

Mas é claro que eu haveria de ganhar, sempre fui muito jogador. Sabia todas as jogadas manjadas. Conhecia o baralho, e principalmente: me conhecia. Sabia que não iria perder.

No desenrolar do jogo, mostrei-me um verdadeiro jogador de cartas, surpreendi-a, controlando e levando a mesa sempre que necessário. Mas até eu entrar no buraco, a sorte esteve ao meu lado.

O jogo começou a ficar difícil, os coringas haviam me abandonado. Tentei me virar do jeito que dava, e mesmo assim fiz uma excelente queda, quando achei que tivesse ganhado o jogo, me surpreendi ao ver, faltaram apenas 10 pontos. A morte estava 600 atrás. Era óbvio que eu ganharia.

Mas, por incrível que pareça, não foi. Na última queda, A Morte me venceu, de forma completamente absurda e inexplicável. Tudo bem, eu havia perdido, era hora de dizer adeus.

-“Bom, parabéns.”. Falei.

-“Ah, obrigado, grande jogo.”. Disse A Morte.

-“Tá certo então, vamos lá.”.

-“Certo. Mas peraí, me diz uma coisa...”.

-“Diga.”.

-“Durante o jogo, eu notei uma coisa.”.

-“O que?”.

-“Você, bem, você é canhoto.”.

-“Sou”.

-“Tem algo de errado nisso.”.

-“Como assim?”.

-“Bom, aqui na sua ficha diz que você é destro.”.

-“Estranho, você viu que sou canhoto.”.

-“Sim, vi.”.

-“Mas e aí, como fica?”.

-“Não posso te levar.”.

-“Como assim, não pode?”.

-“Não está certo.”.

-“Ah, tudo bem então.”.

-“Olha, desculpa o inconveniente, não foi por mal sabe...”.

-“Sim, tudo bem. Pode ficar tranqüila.”.

-“É que são esses malditos estagiários, sempre aprontam comigo.”.

-“É complicado mesmo.”.

-“Agradeço então a partida, e até qualquer dia.”.

-“Nada contra você, mas espero que demore pra nos vermos outra vez.”.

-“Sempre dizem isso! Vocês são todos insensíveis! Cretinos!”.

Então A Morte se foi, choramingando e resmungando.

Eu me sentia mal, pois havia quebrado a promessa de nunca mais usar jogos de cartas para sobreviver, mas enfim, foi por uma boa causa.

E depois disso eu nunca mais comi amendoim.

Saturday, August 08, 2009

Que seja Agosto

Que morram quantos tiverem de morrer
Que cheguem tarde aos que esperam por nós
E que se valha ao preço de ter estado aqui
Ao menos que alguns anos
E ter vivido e ouvido a voz guia
Que a cada minuto que passa
Diz-me estar mais velho
A cada sonho que vivo
Já não tenho o mesmo coração
Que seja agosto então
E leve minha alma pra passear
Pois já não tenho o controle
Da vida que passa diante de mim